sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Os 500 jogos de Marcos pelo Palmeiras


Ontem meu amigo Thiago me repreendeu com veemência. Ele achou um absurdo que eu, um palestrino xiita, tivesse um blog futebolístico e não mencionasse o fato de Marcos completar 500 jogos com o manto. Ele disse que Deus há de me perdoar por isso, mas ele e o Palmeiras, não!

Rapaz, eu tenho evitado ser muito palmeirense neste espaço. Aliás, este é para ser um blog frio e calculista – porque não há nada mais ridículo que uma opinião. Mas porque eu prefiro perder o lugar no paraíso a não poder mais entrar no Palestra, republicarei aqui um texto que redigi em outro canal há algum tempo.

Tinham pedido que eu fizesse uma comparação de Marcos com Rogério Ceni. Eu fiz este texto mais como uma provocação, com a certeza de que pediriam para mudar. Mas no dia, não sei por quê, ninguém falou nada e saiu publicado assim mesmo. É somente uma homenagem ao Marcos, que faz muito bem em repudiar ser comparado sempre a Rogério Ceni.

Ah! Eu ia desenhar um Marcos com caneta Bic, mas o mosaico que a torcida do Palmeiras fez ontem com o rosto de Marcos só não foi mais bonito que o gol do Marcos Assunção aos 44 do segundo tempo. Então que vejamos o mosaico, ora pois.

Vamos ao texto:


O cidadão brasileiro pode ter vários vícios. Muitos deles fumam cigarro, outros elogiam o cabelo da Ana Maria Braga. Há também os que aceleram muito quando estão dirigindo… Mas nenhum vício é maior, nem acomete tantas pessoas, quanto o de sempre comparar Marcos a Rogério Ceni. Das mais tenras crianças aos mais caquéticos velhos, nós todos temos a incapacidade de falar de Marcos sem citar o rival.

Eu achava até que Marcos já estava acostumado com isso. Mas meu engano foi maior que o de um marido traído. Em sua resposta ao comentário de Neto, que, claro, havia comparado os dois, Marcos foi tão duro quanto correto, e certamente muitos evitarão compará-los tão cedo. Ninguém esperava palavras tão duras vindas de boca onde se costumava ouvir piadas e simpatias. Mas convenhamos, Marcos tem razão. Senão vejamos.

Marcos não pode ser comparado a Rogério Ceni em questão de títulos. Se Rogério é tri campeão Brasileiro e tem uma Libertadores e um Mundial, Marcos tem uma Libertadores jogando pelo Palmeiras com um destaque nunca visto antes em um goleiro. Fora isso, Marcos ganhou a copa do Mundo jogando de titular, deixando o próprio Rogério no banco. Aliás, se não fosse por Marcos, tenho sérias dúvidas se teríamos cinco estrelas acima do escudo da CBF.

Marcos não pode ser comparado a Rogério Ceni em sua habilidade como goleiro. Está certo que Rogério é ótimo, mas Marcos é muito mais que isso. Marcos é um santo, e assim sendo, só uma comparação com os demais mortais já é um pecado comparável ao original. Ele já salvou jogos em que o Palmeiras já havia sofrido até a extrema unção!

Marcos não pode ser comparado a Rogério Ceni por sua simpatia. Enquanto Marcos é adorado por todas as torcidas – inclusive pela corintiana, que sofreu tanto nas mãos do goleiro! -, Rogério é muito mal visto por sua arrogância. Enquanto um gol sofrido por Marcos é sofrido por mais de uma torcida, o sofrido por Rogério é comemorado por todas elas.

Marcos não pode ser comparado a Rogério Ceni porque sempre que os dois tomam um gol, eles levantam o braço. O Marcos levanta o braço para assumir a culpa pelo gol sofrido; o Rogério, para reclamar impedimento.

Ah, sim. Dizem que Rogério bate faltas melhor que o Marcos. Mas não sei de onde tiraram isso, já que Marcos nunca bateu uma falta! Como saber quem é melhor, se nunca houve base para comparação?! Eu, hein!

O Corinthians não tem Libertadores. E daí?

Uma das vantagens de ser um jornalista desempregado – além de poder fazer cocô a qualquer hora – é poder escrever os textos depois de alguma digestão dos fatos. Por exemplo, já faz dois dias que o Inter ganhou a Libertadores, e só agora vou falar sobre este campeonato.

É que parecia que estava tudo desenhado para que esta Libertadores fosse do Corinthians. Seria uma redenção perfeita: no ano de seu centenário, o Corinthians conquistaria o título que lhe falta. A Libertadores parece tão intangível ao Corinthians a ponto desse time ter vencido o Mundial sem ter levado a Libertadores. É como alguém que casa com uma pessoa sem nunca tê-la namorado! Ou um sujeito que chega à seleção do país sem ter chegado à titularidade na própria equipe. Ou um relógio que chega na meia-noite sem passar pelas dez.

Mas o Flamengo eliminou o Corinthians, e na quarta-feira o Inter foi campeão.

Perambulam pelas ruas muitas chacotas aos corintianos. Dizem que até o Celso Roth é campeão da Libertadores, mas o Corinthians, não. Que o Corinthians só vai ganhar a Libertadores no mesmo dia em que construir o próprio estádio. Enfim, hoje o que mais atormenta o torcedor corintiano são essas duas coisas: não ter Libertadores nem estádio.

Mas isto não é uma particularidade alvinegra. Fiz dois conjuntos: um dos que não têm estádio e outro dos que não têm Libertadores. No meio, a interseção: os que não têm Libertadores, nem estádio, como é o caso do Corinthians.

Vejamos:


Em minha modesta e questionável opinião, este complexo corintiano se deve ao torcedor são-paulino, que tanto exalta seu estádio e suas Libertadores. Mas o corintiano precisa entender que não se mede grandeza de time por sala de troféus ou por grandeza do estádio. Da mesma forma que o corintiano gostaria de um estádio como o Morumbi e de uma taça como a Libertadores, o são-paulino gostaria de uma torcida que prescindisse de tamanhas posses para ser tão apaixonada.

PS1¹- Aqui cabem algumas ressalvas. Dirão que o Botafogo tem um estádio, mas se o General Severiano pode ser considerado um estádio, a Fazendinha também pode. Por isso, adotei o critério de que clube sem estádio é aquele que não tem um estádio nas proporções de suas tradições. Daí a Portuguesa Santista ter um estádio – o Ulrico é tão pequeno quanto a Fazendinha e o de General Severiano, mas está à altura da tradição da Briosa.

PS² - Muita gente também acha que o Fonte Nova pertence ao Bahia, mas ele pertence ao Governo Estadual da Bahia da mesma forma que o Pacaembu pertence à Prefeitura de São Paulo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Silvio Luiz em castellano

Outro dia postei aqui uma entrevista de uma pergunta só com Silvio Luiz, o último narrador ingênuo do futebol.

Pois bem. Não é que hoje acho um Silvio Luiz falsificado em espanhol? Não sei se ele é chileno, argentino, espanhol ou o que quer que seja. Ele é da Fox Sports, e quando é gol, imita o Silvio Luiz em tudo!

“Éééééééé de Palmeiras! Fue, fue, fue, fue, fue el! Tadeu!”

Confira comigo no replay:

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Entrevista de uma pergunta só: Silvio Luiz

Talvez não seja exagero dizer que os jogadores de futebol dos nossos tempos são exatamente o contrário de Garrincha.

Não falo da parte futebolística – embora que se vissem Garrincha driblando para trás, ele seria condenado à forca -, senão no que diz respeito ao comportamento do jogador em campo e fora dele. Porque Garrincha era ingênuo. Ingênuo e despretensioso.

E veja só que curioso. Ingenuamente e despretensiosamente, Garrincha conquistou o mundo duas vezes. E nossas duas últimas seleções, megalomaníacas e agressivas, caíram melancolicamente nas quartas-de-final. Por isso, pensei: será que não é isso que está faltando à nossa seleção: ingenuidade?

O primeiro nome que me veio à cabeça foi o de Obina. Obina, o último ingênuo do futebol. Porque assim como Garrincha, Obina não sonha com a Europa. Ele está muito feliz no Atlético, assim como Garrincha gostava do Botafogo, mas se deliciava mesmo era no Pau Grande FC. Assim como Garrincha, Obina vê o futebol antes como um divertimento do que uma responsabilidade. Assim como Garrincha, Obina joga acima do peso – mas por acarajé, não por álcool.

E assim como Garrincha, Obina é Manoel.

Para descobrir se ele deve mesmo ser convocado à seleção, resolvi fazer a primeira entrevista de uma pergunta só deste blog e deste mundo com Silvio Luiz.

Silvio não foi escolhido à toa. Ele é o único narrador esportivo brasileiro que não trata o futebol como assunto de segurança nacional. Num esporte em que ninguém mais dribla ninguém, a narração de Silvio é uma das únicas formas de divertimento. Talvez o único modo suportável de acompanhar um jogo ruim de time dos outros seja pela voz de Silvio. Sabendo disso, a Band Sports o coloca para narrar jogos dos campeonatos Português e Turco. Seria Silvio o último ingênuo dos narradores?

É por isso que fiz a ele a tal questão sobre uma possível convocação de Obina ao nosso escrete.

Eu não sou mané, Garrincha!: Qual é o papel de Obina na formação da seleção brasileira que disputará a Copa de 2014?

Silvio Luiz: Você deve estar de brincadeira.

A coisa está feia: nem os ingênuos aceitam mais a ingenuidade.

sábado, 14 de agosto de 2010

Ronaldinho não pode errar

Bom dia, meu caro amigo internauta. Gostaria de agradecer por todos os comentários que têm sido postados ultimamente neste blog. Se isto não é sucesso, então não sei o que significa esta palavra de três sílabas.

Eu estava disposto a dormir tranquilamente na última sexta-feira, quando apenas ouvi o seguinte, no Jornal da Globo. A Narração é de William Waack:

“Na Europa, Ronaldinho Gaúcho é destaque positivo e negativo em torneio disputado em um único dia. Os jogos tinham apenas 45 minutos. No confronto entre Milan e Juventus, Ronaldinho fez um belo gol. Na decisão por pênaltis, contra o (sic) Inter, coube a ele a última cobrança, tentou a cavadinha... E enterrou o time. O título ficou com o (sic) Inter.”

Os sic´s que relatei no texto são um preciosismo xiita. Implicâncias, mesmo. É que ele estava se referindo à Inter de Milão, então deveria dizer que era “a” Inter, não “o” Inter. O Inter é o de Porto Alegre, aquele que está a disputar a final da Libertadores e que tem o Celso Roth, um gaúcho sem bigode, como técnico.

Mas esta fala originou este post por outra questão.

O torneio disputado em um único dia a que se referiu William é o troféu Birra Moretti. É um campeonato que reuniu, em Bari, três dos grandes italianos: Inter, Juventus e Milan. Cada jogo era disputado em um único tempo, e se acabasse empatado, a disputa iria para os pênaltis. O vencedor no tempo normal levava três pontos, o vencedor nos pênaltis somava dois, e o perdedor dos pênaltis ganhava apenas um.

- E o empate? Você se esqueceu do empate! – interrompe o leitor.

Não, amigo leitor. Não há empate, porque o empate leva aos pênaltis.

- Ah, é mesmo! Continue, por favor.

Pois não. No primeiro jogo, a Inter de Milão venceu a Juventus por um a zero. No segundo, Milan e Juventus empataram em um a um – quando Ronaldinho fez o gol mencionado por William. E na decisão por pênaltis, Ronaldinho bateu o pênalti muito bem, no ângulo. Uma cobrança que nem o Yashin num dia inspirado defenderia. O Milan venceu nos pênaltis e eliminou a Juventus.

E o último jogo, entre Milan e Inter, terminou em zero a zero. Este resultado dava automaticamente o campeonato à Inter de Milão, mesmo se o Milan vencesse a decisão por pênaltis – já que ambos empatariam com quatro pontos, mas a Inter levaria vantagem no saldo de gols. Então, as cobranças por pênaltis eram apenas figurativas – ou, como diria meu tio avô, para cumprir tabela.

O Milan já perdia a decisão por pênaltis por quatro a dois – Flamini havia errado – quando Ronaldinho tentou dar uma cavadinha espetacular e perdeu.

Por isso, ao contrário do que disse William, o Ronaldinho não enterrou o Milan. O Milan já estava enterrado, e ele resolveu brincar na última cobrança. Sim, porque não foi uma paradinha convencional – como a de Loco Abreu, Neymar e Djalminha. Foi uma cavadinha anabolizada: a bola não foi para o centro do gol, mas para o ângulo. Porém, acertou a trave, e William foi duro com ele no Jornal da Globo.

Por que tanta dureza com um gênio na hora da invenção? Parece que nos últimos tempos, a ousadia tem o êxito obrigatório. Porque se ele batesse normalmente e perdesse, não haveria grandes comentários, por certo.

Talvez Ronaldinho esteja enjoado de futebol por causa disso: porque só os medianos têm o direito de errar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Celso Roth 2 litros

Uma das famas mais injustas do futebol brasileiro é a de Celso Roth – dizem que ele é como um refrigerante de dois litros, que é bom no começo, mas perde o gás no meio. Ora, convenhamos que conseguir consistência por um longo período num Grêmio de Anderson Pico, Tadeu e Jonas é praticamente impossível. Ou então que o Atlético do ano passado, que tinha Diego Tardelli como o grande nome, não era referência de um bom elenco.

Porém, mesmo as famas mais injustas têm argumentos sólidos que as sustentem. Se o Grêmio era tão ruim assim, por que conseguiu 44 pontos no primeiro turno do Brasileirão do ano retrasado? E o Atlético, que não tinha craques, também possuía um elenco que permitia brigar, no mínimo, pela Libertadores.

Então, para que não haja mais dúvidas, estudei métodos eficazes de retenção de gás em refrigerantes de dois litros. Após dominar todas as técnicas, adaptei-as ao futebol moderno e ao Celso Roth, para que o Inter tenha um grande time por mais tempo. Porque se o título da Libertadores já parece inevitável, há ainda um longo caminho até o Mundial.

Primeiro e muito importante: não compre Celso Roth em garrafas grandes. Além de garrafas que suportam mais de dois litros dificilmente caberem nas geladeiras, elas são obrigadas a ficar deitadas – caso couberem. E isso é fatal.

“Fatal” é exagero. Mas uma garrafa deitada segura tanto gás quanto um coelho de botas. Então, nunca deixe o Celso Roth deitado na geladeira. Quando ele se deita, uma parte maior da superfície de seu corpo entra em contato com o ar. E adivinhe: é pelo ar que o gás se dissipa. Por isso, ele deve ser mantido sempre de pé, e se possível aperte-o – amasse um pouco, mesmo – para que a área de contato seja reduzida ao extremo.

Outro cuidado muito importante é o de nunca abrir o Celso Roth enquanto ele estiver quente. É sabido que o gás se dissipa muito mais facilmente quando em temperaturas elevadas. Então é melhor deixá-lo na geladeira – ou até mesmo no freezer – antes de abri-lo. Duas horas no freezer ou oito horas na geladeira serão suficientes.

Por último, o mais óbvio – mas também mais importante – é nunca esquecê-lo com a tampa aberta. Isto seria de uma distração tão absurda quanto a de um diretor de presídio que abre as grades de sua cadeia de vez em quando. E assim como o diretor do presídio só autoriza a abertura das grades para a entrada e saída de presos, só se deve abrir a tampa de Celso Roth para a entrada e saída de líquidos.

Desta forma, não garanto que Celso Roth nunca perderá seu gás. Grandes mestres, como Rubens Minelli, Oswaldo Brandão, Feola e Ênio Andrade já perderam o gás um dia. Porém, com estes cuidados, isto demorará muito mais tempo para acontecer.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

As placas de publicidade de Estados Unidos contra Brasil

Eu dizia cá no blog, no último post, que o futebol não pode dar certo nos Estados Unidos.

Depois da última Copa, parecia que o interesse dos Estados Unidos por este esporte daria uma grande guinada, pois eles conseguiram a façanha de empatar com a Inglaterra e de conseguir a classificação no último minuto, com gol de Donavan.

Pois bem. O amistoso de hoje deveria ser um marco disso, uma verdadeira redenção.

Mas, independente do resultado do jogo, nem os americanos levaram este jogo a sério. Resolvi fazer um levantamento das marcas estampadas nas placas de publicidade à beira do campo, e eis o resultado:

Anúncios voltados unicamente para o público brasileiro (12): Netshoes, Brahma, Burger King (a despeito da marca ser americana, o anúncio era feito em português), Embratel, Pitágoras, Itaú, Microlins, Copagaz, Makro, Unimed, Wizard, Supergasbras e PFC.

Anúncios voltados exclusivamente para o público americano (6): AT&T, Soccerstore.com, Globo Internacional, T90 Racer, e Buck´s.

Anúncios voltados para ambos os públicos (10): Topper (o slogan da marca era traduzido ao espanhol e ao inglês, além do português), Gatorade, Hyundai, Budweiser, Rexona, Mcdonalds, Visa, Castrol, Pepsi e Pestana.com.

É preciso ressaltar que o jogo não foi sequer transmitido na TV aberta do Brasil. Aqui, quem quisesse assistir à partida precisaria ter acesso a TV a cabo ou a internet. Ao contrário dos americanos, que tiveram o jogo à disposição na TV aberta, e pombas, o jogo era num estádio americano!

Simplesmente havia o dobro de anúncios voltados exclusivamente ao público brasileiro do que de anúncios voltados ao público americano: 12 a 6. Os patrocinadores americanos mostram que ainda vai demorar muito, mesmo, para que o futebol seja um esporte interessante por lá.

Nem o futebol brasileiro empolga nos Estados Unidos

Está certo que um jogo com Ganso e Neymar seja quase sempre empolgante, mas no primeiro tempo de Estados Unidos x Brasil, peguei-me um pouco entediado. No começo achei que era porque o jogo valesse mais para eles do que para nós. Os americanos perderam nas oitavas, mas saíram com uma boa moral da Copa, enquanto nós perdemos nas quartas, mas saímos devastados.

Não era isso.

Porque havia pela primeira vez desde 1982, a chance de uma nova perspectiva futebolística de nossa seleção. Não é que procuramos um futebol bonito – procurar beleza no futebol é como uma mulher procurando beleza através da cirurgia plástica. Procuramos um futebol leve. E veja bem: Lucas, Ramires; Ganso, Robinho; Neymar e Pato não é só um time leve. É um time anoréxico!

Como nem isso me empolgou, logo notei o motivo. Os americanos ainda não são capazes de criar uma atmosfera propícia ao futebol no estádio. Por vários motivos.

Nota-se logo de cara que a arquibancada atrás do gol começa com três metros de altura, algo típico para jogos de futebol americano. Depois, e principalmente, que o público não vibra proporcionalmente às jogadas. É um público disperso, desconcentrado, que passa mais tempo conversando do que assistindo ao jogo. Tanto que demoram um pouco para comemorar um gol.

E fica difícil mesmo de assistir a um jogo ambientado nos Estados Unidos. O estádio custa mais de um bilhão, o ingresso custa caro, ali havia duas seleções de Copa do Mundo, mas era um jogo insuportável. É melhor ver um jogo da terceira divisão no estádio da Juventus (Mooca) do que um jogo de Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Por isso, talvez seja melhor desistir. O futebol será um sucesso nos Estados Unidos no mesmo dia em que o beisebol for um grande sucesso aqui no Brasil.

No próximo post, uma prova concreta sobre essa teoria.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Muricy Ramalho, um homem de palavra

Não é raro que um treinador seja demitido no Fluminense. Do ano 2000 até hoje, houve 23 mandatos de técnico no clube carioca – na média, um técnico a cada cinco meses. Digo mandato, porque alguns repetiram, como Parreira (três vezes), Renato Gaúcho (três vezes), Cuca (duas vezes), Oswaldo de Oliveira (duas vezes), Valdir Espinosa (duas vezes) e Joel Santana (duas vezes).

No ano passado, o Flu foi dirigido por quatro técnicos diferentes. Em 2006, foram cinco. Em 2002, 2004 e 2008, foram três por ano.

E você deve imaginar que não é simples demitir um técnico. Porque o contrato de treinador não é feito como um empregador e um empregado comum, quando o sujeito está contratado por tempo indeterminado, e ao ser demitido recebe as férias proporcionais, o décimo terceiro proporcional e o aviso prévio. Com um técnico de futebol, o tempo de contrato é determinado. E quem encerrar este vínculo antes do prazo deve pagar uma multa rescisória. No caso de uma demissão, como as que o Flu está acostumado a fazer, é ele quem deve arcar com esta multa.

Ao final de 2006, como se deve imaginar, o clube estava pagando as multas rescisórias dos quatro treinadores demitidos no ano mais o salário do quinto – que só seria demitido em 2007.

Pois bem. Ricardo Teixeira convidou Muricy para ser técnico da seleção, ao que este recusou, alegando que tinha um contrato de dois anos apalavrado com o Fluminense – que se somaria ao fim de seu contrato atual com término em dezembro deste ano. Se tudo ocorrer conforme a média dos últimos dez anos, o Fluminense demitirá Muricy daqui a um mês (ele já está no quarto mês de contrato), e a multa recisória será equivalente a dois anos e três meses de contrato.

E se juntará às 10 parcelas de 300 mil reais que Muricy ainda tem a receber do Palmeiras.

Dizem que Muricy abriu mão de dirigir a seleção – sonho de todos os treinadores – por não abrir mão de sua palavra com o Fluminense. Mas ao cumprir sua palavra, ele se coloca na eminência de receber uma multa rescisória tão gorda, que poderia cantar na Fat Family.

Tudo bem, Muricy é um homem de palavra. Mas não vamos negar: ele é também um homem de negócios!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O abecedário da torcida brasileira apresenta: André, o palmeirense

O abecedário da torcida brasileira conta histórias mais ou menos verídicas.

*

Tem histórias que aparentemente não fazem sentido. Vide o caso de Adão e Eva. Eles passaram anos, séculos reclamando de Deus, fazendo-O passar por vilão. Até que alguém explicasse à humanidade que Deus, o pai do amor, não seria tão mal à toa. Ele expulsou o casal nu do paraído porque comeram aquela maçã cultivada com tanto carinho por séculos a fio. Justamente aquela, a preferida do Todo Poderoso.

Pois bem. Uma coisa não fazia sentido na vida de André. Ele era um palmeirense tão fanático, a ponto de ser um carnívoro pelo mesmo motivo que os vegetarianos são vegetarianos. Quer dizer, pelo motivo contrário. Os vegetarianos comem vegetais pela compaixão que tem com todos os animais. André era carnívoro por compaixão com tudo que é verde.

- Como eu poderia comer um alface sabendo que ele é da mesma cor do meu Palestra?! – dizia, se exibindo.

Está certo. Se alface tivesse gosto de lasanha, ele encontraria outras formas de explicitar a devoção ao time. Mas também não fazia esforço para gostar do legume. E jurava a quem aparecesse, com argumentos convincentes e sociológicos, que Popeye é desenho mais diabólico do que aquele criado pelos nazistas.

Mas André nutria uma incerteza dentro de si. Ele teve um cachorro por quem teve uma paixão que só uma criança pode ter por um animal. André o imitava na forma de deitar, mesmo sendo anatomicamente desconfortável; latia para o barulho, ficando rouco várias vezes; e até comia ração de vez em quando, cujo gosto era mais pavoroso do que o do alface. Este cachorro nasceu em 1993, e tinha o nome de Cafu.

O leitor mais futebolizado deve estar percebendo a grande incoerência deste relato. Em 1993, Cafu era jogador do São Paulo, não do Palmeiras! Isso se disfarçava um pouco pela passagem que Cafu teve no Palmeiras em 1996. Mas o cachorro já tinha nome aos 3 anos de idade! Enfim, era um caso sério que secretamente lhe atormentava. Como pôde consentir com um nome são-paulino a seu cão? Será que aos 6 anos não gostava do Palmeiras tanto assim? Então ele não poderia dizer que era palmeirense desde criancinha?

A coragem foi-se juntando dia a dia como um porquinho que se enche de moedinhas ao passar dos anos. E chegou o dia de quebrar este porquinho de uma vez por todas. E perguntou à mãe:

- Mãe! Como eu deixei que o Cafu se chamasse Cafu se ele não jogava no Palmeiras?

A mãe achou graça da desmemória do filho:

- Você não deixou que ele se chamasse Cafu, André! O nome de verdade dele era Cafuzinho. Cafu pelo jogador do São Paulo, o time do seu irmão. E Zinho pelo jogador do Palmeiras!

Assim, a história completou o sentido para todos os sempres. Mas o principal é que André pôde voltar a torcer ao Palmeiras sem a culpa de um pecado original.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A melhor diretoria do Brasil

O São Paulo não precisaria ter vendido o Hernanes. Acompanhe o raciocínio.

A diretoria do São Paulo diz que vende jogadores para financiar o time, porque o futebol brasileiro não seria viável, atualmente, sem a venda de jogadores. Por isso, vendeu Hernanes a 9,5 milhões de euros. Destes 9,5 milhões, 75% pertencem ao São Paulo. Então 7,125 milhões de euros entraram no cofre tricolor: aproximadamente 16,5 milhões de reais.

Pois bem. Neste ano, o São Paulo recusou todas as ofertas de patrocínio na camisa até agora. O diretor de marketing do clube, Adalberto Baptista chegou a rechaçar uma proposta que considerou boa para o Corinthians - que não vence o Campeonato Brasileiro desde 2005 -, não para o São Paulo - que ganhou três Brasileirões nos últimos anos, mas tem apenas dois terços da torcida corintiana.

Se a oferta que o São Paulo recebeu e recusou for idêntica à que a diretoria corintiana recebeu e aceitou da Hypermarcas - aproximadamente 38 milhões de reais ao ano -, o dinheiro obtido pelo São Paulo com este patrocínio desde que a LG deixou de estampar sua marca no peito são-paulino até o dia de hoje seria superior ao valor recebido pela venda de Hernanes.

Isso mesmo. A LG saiu no dia 15 de Janeiro, há 201 dias. Se em um ano o São Paulo recebesse 38 milhões, nesses 201 dias receberia quase 21 milhões de reais. Dinheiro suficiente para prescindir da venda deste jogador – com 4,5 milhões de reais de lucro. E para ele não ficar insatisfeito, seria possível lhe oferecer um aumento de 75 mil reais por mês durante cinco anos com os 4,5 milhões que sobrariam.

O que vale mais? Uma camisa limpa sem Hernanes, ou uma camisa borrada pelo patrocínio ostentada por um craque do quilate de Hernanes? O São Paulo já fez a opção dele.

Futebol cor de rosa

O Everton lançou neste ano uma camiseta que o site oficial do clube considera revolucionária. Não é que ela tenha asas no lado, nem que seja colada ao corpo como aquela de Camarões. Também não tem um Che Guevara estampado no peito. A camisa é revolucionária porque tem a cor rosa.

Sim, amigo leitor. Rosa como a cor deste blog – que por sua vez possui esta cor porque supostamente nenhum time veste rosa.

E foi só pesquisar um pouco para descobrir que o rosa é – ou já foi – cor de diversos clubes e seleções pelo mundo. Quanta decepção! Agora preciso de outra cor que nenhum time utilize.

Quem sabe o bege?

Pois fiz uma vasta pesquisa de três minutos pela internet para encontrar algumas camisas da cor revolucionária do Everton. Veja:

O rosa do Atlético Mineiro:



O rosa do Everton:



O rosa da Juventus:



O rosa do Sevilla:



O rosa do Barcelona:



O rosa do Rio Branco de Campos:



O rosa do Benfica:



O rosa da Escócia:



O rosa do Peru:



E por que não? O rosa do árbitro Margarida:

A pureza do brinquedo

“O futebol já foi retocado diversas vezes em suas regras e táticas; vencendo quem vencer esta Copa, a sensibilidade popular está demonstrando que o futebol precisa de uma revolução radical para salvar-se como espetáculo das multidões.

E se não quiserem mexer nas regras, para salvar o futebol, há outra solução, embora utópica: acabarem para sempre com os técnicos. Sem técnicos, talvez a rapaziada conseguisse devolver ao futebol a pureza do brinquedo.”


Veja só que engraçado, meu amigo leitor. Este texto acima entre as aspas não foi escrito neste ano, durante a Copa do Mundo que correu o risco de ter a menor média de gols da história. Nem no ano retrasado, em que o São Paulo quase foi o campeão brasileiro com a melhor defesa de todos os tempos. Não é ninguém falando das declarações de Muricy, que mandou ao circo quem quisesse ver espetáculo. Também não se trata de Felipão voltando ao Palmeiras como ídolo, nem de Luxemburgo recebendo 700 mil reais no Atlético Mineiro. Não pense, pois, que o sujeito acima está revoltado com os que se encantaram com o futebol vistoso da Espanha na Copa do Mundo desde ano que marcou tantos gols quanto Ronaldo sozinho em 2002.

Este é um pedaço de um texto de Paulo Mendes Campos escrito em 1974.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O time do jornalista



Ainda bem que Deus, entretido em sua engenharia, resolveu dar dedos aos pés. Porque é graças a eles que posso dizer com provas estatísticas que sou capaz de contar os leitores deste espaço utilizando meus próprios dedos! E é a todos estes leitores que peço um momento de tolerância para abordarmos um assunto jamais tratado aqui: sexo.

Não falaremos do sexo em si. Usaremos este assunto tabu somente como base para uma comparação futebolística.

Aliás, este blog é quase um sexagenário, e ainda não falou sobre sexo. Se a única fonte que um ET tivesse sobre a cultura humana fosse este blog, ele não saberia que nós nos reproduzimos sexuadamente. Assim como muita gente defende que o ensino sexual seja obrigatório nas escolas, eu proporia aqui que o assunto sexo seja obrigatório em todas as mídias que tratam de futebol.

Não porque sexo e futebol sejam as duas melhores coisas do mundo – se existe algo melhor do que lasanha, eu desconheço -, mas são os assuntos obrigatórios, para onde todas as conversas se encaminham. Pensem nos portugueses conquistadores em suas caravelas. Se não fossem o sexo e o futebol, eles não teriam do que falar.

Mas o futebol foi inventado apenas no século XIX – dizem os leitores mais atentos.

Não é bem assim. Se consultarmos os livros de Nelson Rodrigues, veremos que o clássico Fla-Flu surgiu quinze minutos antes do nada. E como o futebol surgiu aproximadamente 49 anos antes do Fla-Flu, podemos dizer que o futebol surgiu 49 anos e 15 minutos antes do nada. Portanto os portugueses das caravelas falavam, sim, sobre futebol.

Toda esta profunda introdução foi feita para explicar por que os jornalistas devem falar qual é o time pelo qual torcem.

Hoje, o que mais se vê, quando um jornalista é entrevistado (?!) é o entrevistador pedindo quase desculpas por lhe perguntar o time. Isso, quando este assunto é abordado. Geralmente, o entrevistador não toca nesse assunto, como se o jornalista time não tivesse.

Este é talvez um dos maiores absurdos da humanidade. Seria o mesmo que o doutor Jairo Bouer, após anos falando sobre sexo na televisão e em sua coluna no jornal, dissesse:

Sou virgem! Mas vocês podem ouvir meus conselhos sexuais, porque estudei muito sobre o tema.

Aqui não pedimos para que o jornalista fique falando sobre o time dele a todo instante. De novo, seria tão absurdo quanto a possibilidade de o doutor Jairo ficar dizendo sobre as posições preferidas dele e sobre as pessoas com quem se relacionou sexualmente.

E diferentemente do que o leitor e os jornalistas podem pensar neste instante, não é para que desconfiemos de favorecimento na abordagem dele sobre o próprio time. Até porque os jornalistas fazem exatamente o contrário: elogiam o time dos outros como se fossem verdadeiros carrosséis holandeses e criticam o próprio a todo instante como se um ataque capcioso e envolvente fosse uma reles Itumbiara. Justamente para não levantar suspeitas.

O jornalista deve dizer o próprio time unicamente para que o público saiba que ele, graças a Deus, tem um time. E que não fala de futebol da mesma forma com que um sexólogo virgem falaria sobre sexo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Andrélio: Paradinha

Paradinha (Pa-ra-di-nha) Substantivo feminino

1 – Prática proibida e condenada por jornalistas, goleiros, juízes e burocratas da Fifa.
Ex¹ : A cobrança foi ilegal, já que ele abusou da paradinha.
Ex²: A paradinha foi proibida pela FIFA.

2 – Efeito de enganar goleiros inexperientes.
Ex: Ele caiu feito um pato na paradinha.

3 – Ato de, no último instante antes da cobrança de uma penalidade máxima, parar, esperar o goleiro cair para um canto, e então – somente então – chutar a bola em gol, preferencialmente no canto em que o goleiro não estiver.
Ex: Neymar fez a paradinha e o Rogério não gostou.

4 – Prática futebolística inventada por Pelé, atualmente aposentado.
Ex: Pelé fez a paradinha em seu milésimo gol, contra o Vasco, do goleiro Andrada.

*

O Andrélio foi criado para suprir os temos futebolísticos que não são abordados pelo Aurélio.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Versinhos da cavadinha


Foi bom que o goleiro pegou,
agora o Neymar aprendeu
que ele não é louco,
e muito menos Abreu!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um bom nome ao comando da Seleção

Mano Menezes não convence nem a minha bizavó, uma ingênua. Após sua primeira convocação, os elogios lhe couberam muito mais pela educação com os jornalistas, em claro contraste com Dunga, do que pela convocação em si. Está certo que ele convocou direitinho – lembrar do quarteto santista mostra o quão suscetível ele pode ser à vontade do povo , e levar Jucilei mostra o quão suscetível ele pode ser à vontade dos empresários -, mas nunca ele será aceito com grande facilidade, até por ser segunda opção.

Aliás, nem Muricy, a teórica primeira opção, seria um nome de consenso. Porque apesar de ganhar três campeonatos brasileiros em sequência, afundou o Palmeiras no ano passado, e demora demasiado para acertar seus times – quase foi demitido do São Paulo várias vezes.

O técnico ideal para o Brasil seria alguém que tivesse cada característica dos nomes sondados. Teria ele a educação de Mano Menezes, o instinto trabalhador de Muricy, a intuição de Scolari, o traquejo com os cartolas de Leonardo, a consciência tática de Luxemburgo, o francês de Ricardo Gomes e a criatividade de Adilson Batista. É claro que este sujeito não existe. Por isso, me espanta que o nome que proporei agora não tenha sido sequer ventilado nos corredores da CBF.

Trata-se de Tospericargerja.

Tospericargerja é uma homenagem à seleção de 70. Um pai se sentiu em dúvida ao querer homenagear no nome do filho o futebol tão vistoso que aquela seleção apresentava. Ele achava que seria uma injustiça homenagear Pelé, e deixar Tostão, Rivelino e Carlos Alberto Torres de lado. Ou então homenagear Jairzinho, e se esquecer de Pelé. Por isso, deu ao filho o nome de Tospericargerja. Tos de Tostão; Pe de Pelé; Ri de Rivelino; Car de Carlos Alberto; Ger de Gerson; e Ja de Jairzinho.

Esse seria o nome de técnico ideal. Um nome com a lucidez de Tostão, a genialidade de Pelé, os elásticos de Rivelino, a inteligência de Carlos Alberto, a consciência de Gerson e a velocidade de Jairzinho!

O apelido dele é Peri.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ah, ele voltou!


Tinha prometido a mim mesmo que este blog só voltaria a partir do momento em que Valdívia voltasse ao Palmeiras. Era uma forma de não escrever aqui nunca mais. E que se fosse preciso voltar, que fosse por um bom motivo. E que motivo maravilhoso foi esse. Há um ano exatamente escrevi neste blog o texto “Ah, se ele voltar...”, em que fazia promessas para o retorno do mago.

E vou dizer. Desde o dia em que ele saiu, que eu espero teimosamente por sua volta. Não aconteceu como propunha Cartola de que finda a tempestade, o sol nascerá; e que finda esta saudade, hei de achar outro alguém para amar. Longe demais disso. Quando eu começava a me encantar com Diego Souza, me lembrava do chute no vácuo do mago. Quando o Cleiton fazia algo de extraordinário, um lance sublime, eu desistia, e dizia: pode fazer o que for, que você não é o Valdívia.

E agora ele voltou, com Felipão e Kléber. Que coisa linda. Que coisa louca.

Sei que devem achar que falo muito por exagero. Que dizendo assim, parece que é como se o Kaká estivesse voltando ao São Paulo, o Ronaldinho ao Grêmio, ou o Tevez ao Corinthians. Mas este é o ponto: é muito mais que isso. O Valdívia de volta ao Palmeiras é de um nível tão extraordinário, que o palmeirense está se sentindo como o santista se sentiria se o Pelé voltasse ao Santos!

Até o Avallone (que Deus o tenha!) disse que com este dinheiro compensaria mais comprar dois ou três bons jogadores. O Benjamin Back (honrosamente expulso da Bandeirantes) chamou o investimento para a volta do mago de loucura. Olhem bem aqui. Se sequestrarem a sua mãe e lhe pedirem seis milhões de euros, você não faria um empréstimo, nem que para isso passasse alguns anos na penúria?

Ou então se Deus lhe telefonasse dizendo que cobra seis milhões para uma volta de Jesus, você não arrumaria este dinheiro de qualquer forma?

Foi isto que Belluzzo fez. Que Valdívia me perdoe por tê-lo comparado à sua mãe ou a Cristo. Mas às vezes algumas comparações se fazem necessárias.

Este texto é para celebrar duas voltas. A de Valdívia ao Palmeiras, e a deste blog à internet!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Um heroi palmeirense

A ideia era a de que este blog só fosse ilustrado por desenhos feitos a mão por Andrício de Souza. Eu tinha a certeza de que isso seria o melhor como Dunga achava que Felipe Melo seria o melhor volante para a seleção brasileira. Porém veio-me a ideia de postar flagrantes de gente que orgulha o time do coração fora das quatro linhas. Como o palmeirense a seguir.

Antonio Carlos Joaquim é palmeirense, tem três nomes próprios, e quarenta e três anos. Ele morava na favela Tiquatira, em São Paulo, até que ela começasse a pegar fogo. Ele se viu obrigado a, no meio das chamas, salvar sua filha de oito anos. Foi quando caiu-lhe uma viga na cabeça e desmaiou. Então o sargento Luís Carlos do Carmo o salvou.

A roupa de Antonio Carlos? Uma camisa verde limão 2007 do Palmeiras. Falsificada, mas quem mora na favela não pode gastar R$150,00 numa camiseta.

Instantes depois, eles tiraram a foto a seguir.

 

A camisa verde limão do Palmeiras não serve apenas para aumentar os lucros da Adidas. Ela provou ser ótima para encontrar feridos no meio de incêndios.

Fonte: G1

domingo, 11 de julho de 2010

O adeus de Galvão


A Copa se encerrava, e quem assistia pela Globo se espantou com o timbre da voz de Galvão Bueno. Ele estava mais emocionado do que na despedida de Ayrton Senna do planeta Terra. Com a voz mais embargada que a Nair Belo depois de tomar 24 horas de friagem. Ele explicou que aquilo era o encerramento de um ciclo.

Desde 1978, ele havia narrado jogos de todas as Copas no exterior. E esta seria a última (no exterior), porque a de 2014 seria no Brasil. Depois, ele garante que passará um pouco mais de tempo com a família.

E aqui, minha gente, surge uma oportunidade cristalina, daquelas que só presenciamos uma vez na vida. De uma raridade maior do que a de um americano jogando futebol com técnica e habilidade. É como se tivéssemos a oportunidade de fazer Ricardo Teixeira sincero por um dia, ou se conseguíssemos que Amaury Jr. vestisse sandálias havaianas. É a oportunidade de encerrar a carreira de Galvão Bueno quatro anos mais cedo!

Veja bem. Galvão disse que não narrará mais Copas no exterior. A tarefa, pois, é simples. Para encerrar a carreira de Galvão, basta transferir a Copa de 2014 para outro país. Joseph Blatter não concordaria de imediato, mas se lhe contarmos a nossa causa com carinho, ele há de ceder.

O minuto de silêncio


Um minuto de silêncio geralmente demora uns vinte segundos. É o tempo de sinalizar a morte de alguém sem causar grandes transtornos ao espetáculo. E se chama minuto de silêncio – ao invés de segundos de silêncio – em respeito ao morto. Porque homenagem que não dura pelo menos um minuto não pode ter esse nome: homenagem. E o efeito é muito prático, pois todo mundo pensa que os vinte segundos duram um minuto.

Falo isso em homenagem à defunta: a Copa do Mundo 2010.

Os locutores dizem que ficamos quatro anos esperando por ela. Mentira! Ficamos uns dois anos e meio, no máximo três. Porque no ano seguinte à realização da Copa, sentimos um asco só de ouvir falar dela. Mesmo se conquistamos o título! E como dessa vez não conquistamos, fica pior ainda. Temos, então, o minuto de silêncio depois da Copa, que dura um ano.

E confessemos todos: queríamos que ela acabasse logo. Quando o Brasil é eliminado, nos sentimos como o adolescente que está na festa e é rejeitado pela mocinha. Ele não vê a hora do pai buscá-lo. O título da Espanha terminou com essa festa que começou e terminou errado. E o apito do juiz anunciando o final do jogo foi igual à buzina do carro dos nossos pais dizendo que eles chegaram, para subirmos no carro e irmos logo para casa.

domingo, 4 de julho de 2010

A opinião da atriz pornô Annita Ferrari

Esta é uma Copa rica de opiniões. Nos programas da Globo, tivemos atrizes, atores, humoristas e até jornalistas dando pitacos sobre os jogos. Na Bandeirantes, Neto e Edmundo disseram a Copa inteira o que achavam e o que não achavam. A ESPN, com a lucidez de sempre, entrevistou Sócrates que prenunciou que Kaká e Luís Fabiano não conseguiriam jogar. A Sportv criou uma celeuma internacional com o Paraguai. Veja só: até um polvo alemão foi visto dando palpites. Mas no meio disso tudo, senti falta das atrizes pornô.

Veja bem: desde que Pamela Butt foi flagrada copulando com o Vagner Love, uma atriz pornô não é citada no mundo do futebol. E não pense que é por falta de abertura da parte delas. Elas dão entrevista com a mesma facilidade que se deixam filmar às câmeras. Aliás, elas já fazem tantas coisas em frente às câmeras, que se sentem à vontade rapidamente na hora de uma entrevista.

Aqui, Annita Ferrari – este nome é uma mistura de Anita da mini série com Ferrari, a marca de carro – nos concede uma entrevista que faria Freud colocar a mão no queixo. Primeiro ela diz uma coisa, depois desdiz, para então concluir uma terceira coisa sequer mencionada. Por isso, recomendo que se leia duas, ou quiçá três vezes. Ao final, talvez você não entenda mais de futebol, mas saberá um bocado melhor sobre a criatura humana.

Eu não sou mané, Garrincha: Quem vai ganhar a Copa?
Annita Ferrari: Eliminou a Argentina já ganhou.

Mané: Então a derrota da Argentina significa o mesmo que uma vitória do Brasil?
Annita: Não, é brincadeira. Mas eles estavam muito bem!

Mané: A Alemanha?
Annita: É.

Mané: Como você comemorou a derrota da Argentina?
Annita: Na verdade queia que ganhassem, mas só tirei sarro, mesmo. Ontem eram eles, a única diferença pra nós eram 24 horas.

Mané: Não entendi. Então você estava torcendo pela argentina?
Annita: Estava.

Mané: Por quê?
Annita: Porque sei reconhecer que estavam bem. Sendo rivais ou não.

Mané: Você costuma torcer pelo melhor?
Annita: Não, porque acho que o melhor é o Uruguai, mas gostaria q a Alemanha levasse.

Mané: O Uruguai é melhor que a Alemanha?
Annita: Não, por isso que te digo: a Alemanha está melhor, mas eu queria, agora que a Argentina está fora, que o Uruguai levasse. Melhor é Brasil!

Mané: Por que você acha que o Brasil foi eliminado?
Annita: Porque estava ruim desde o começo. Era questão de tempo. Não é culpa do Dunga, é de todos. Não era para ser.

Mané: E o Felipe Melo?
Annita: É um grande imbecil! Mas não é totalmente culpado.

Mané: Por que ele é um imbecil?
Annita: Para começar, ele não tem humildade para assumir os erros. Daí já viu.

Mané: O Neymar e o Ganso deveriam ter sido convocados?
Annita: Talvez. Acho que sim.

Mané: Qual é, na sua opinião, o maior destaque individual da copa?
Annita: No Brasil?

Mané: No brasil e no geral.
Annita: No Brasil, Lúcio. No geral, ainda não tenho certeza.

Mané: Para finalizar: quem deve ser o novo técnico?
Annita: Vixi. Pelé, mas como ele não vai aceitar... Felipão!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Felipe Melo em 7 atos

Logo que foi convocado para participar de sua primeira Copa, aos 27 anos, Felipe Melo concedeu uma entrevista à ESPN Brasil por telefone. Ele se declarou feliz, e disse todas as coisas que um jogador diz tão logo sabe que disputará o maior evento de todos. Pois PVC lhe perguntou:

- É o PVC quem está falando. É concenso, acho que você deve concordar, que você não fez uma boa temporada no Juventus. Por que a gente deve acreditar que o Felipe Melo da Copa do Mundo vai ser diferente do Felipe Melo da Juventus, da temporada 2009/2010?

Felipe:

- Então. É... Você acompanhou o Campeonato Italiano?

- Sim, bastante – responde PVC.

- Então, é porque há controvérias. Você falando isso aí, eu não concordo com você. A gente tem que pegar números. Né? Eu trabalho com números. Meus números aqui na Juventus, quando o Felipe Melo não jogou: eu fiquei 6 jogos sem jogar, perdeu 5. Então eu não concordo com você, não.

- Mas com você jogando a Juventus fez a pior campanha em 40 anos, também.

- Calma aí, calma aí. Não é porque tem um prêmio que deram, uma rádio que faz uma sacanagem. Na realidade de brincadeira que saiu. Você faz uma coisa dessas aí, acho que você não entende de futebol.

- Não, não, não. Desculpa, Felipe. Eu não tô falando por brincadeira nenhuma. Eu tô falando porque a gente transmite o Campeonato Italiano.

- Não. Você primeiro tem que pegar os números do jogador, ver o que o jogador faz na temporada, depois você faz uma coisa dessas aí. Porque é ridículo. Não acredito. Você é jornalista?

- Você é jogador? Eu sou jornalista.

(...)

- Eu acho que ele desligou – intervem um terceiro jornalista.

*

Aos 10 minutos do primeiro tempo das quartas de final entre Brasil x Holanda, Felipe Melo lembra Gerson e deixa Robinho livre para marcar o primeiro. Os jornalistas começam a se desculpar por ter questionado Felipe. Os torcedores começam a agradecer por Dunga nunca ouvir os jornalistas. Dunga começa a ter a certeza ainda mais absoluta de que deve-se sempre seguir as próprias convicções.

*

Aos 8 minutos do segundo tempo, Felipe Melo e Júlio César não se entendem e não conseguem neutralizar um cruzamento fácil de Sneijder. Pior: a bola resvala na cabeça de Felipe e entra no gol. A Holanda empata.

*

Aos 28 minutos do segundo tempo, cinco minutos depois de o Brasil sofrer a virada, Felipe Melo parece que vai roubar a bola do adversário, mas pisa-lhe na coxa. O juiz, que até então vacilava e não tinha convicção sequer para marcar um tiro de meta, o expulsa peremptoriamente.

Ninguém questiona a decisão do juiz. Com um a menos, o Brasil não conseguiu reagir. Também pudera: se quando tinha 11 jogadores não conseguia ameaçar a Holanda, porque o faria com 10?!

*

Felipe não fugiu das entrevistas. Não ficou com vergonha, nem se intimidou a ponto de evitar declarações polêmicas. Pelo contrário! Disse que a expulsão foi injusta. Porque se ele quisesse machucar o adversário, todos sabem que ele teria força de lhe quebrar a perna.

*

Ronaldo disse que Felipe Melo não deve passar as férias no Brasil. Vi gente dizendo que o nome disso é incitação à violência, e que Ronaldo está fazendo com os outros o que não gosta quando fazem com ele. Mas o que mais se viu foi a interpretação de que Ronaldo estava mesmo incitando a violência contra Felipe. E que não há nenhum problema nisso.

Bem, temos duas interpretações possíveis, porque o verbo “deve” neste caso é ambíguo. Pode ser que Ronaldo tenha dito que Felipe não passará as férias no Brasil, porque não tem a intenção de fazê-lo. Mas pode ser que Ronaldo esteja dando um conselho a Felipe, dizendo que ele não deve, não pode passar as férias no Brasil.

*

Felipe Melo é aclamado no Jornal da Globo o grande vilão da Copa, o motivo pelo qual não comemoraremos o hexa no dia 11 de julho. Não Dunga, que o escalou sabendo de seu temperamento. Não Ricardo Teixeira, que contratou Dunga sabendo que ele não tinha experiência como treinador. Nem todos nós, que deixamos Ricardo Teixeira há 21 anos na presidência da CBF.

Ah! Nem a Holanda, que jogou bem e mereceu a vitória.

Uma boa música para um mau dia como hoje

Ah, Dunga...

Uma coisa tem que ser levada em consideração: o ser humano vive de contrastes. O que faz o caráter e a certeza de uma pessoa são alguns exemplos positivos daquilo que ela acha que é correto, mas, principalmente e antes de tudo, exemplos negativos: aquilo em que ela não acredita. Com Dunga não foi diferente.

Lembremos que ele surgiu em 90, depois de Telê ter fracassado por duas Copas seguidas após exibir um futebol vistoso sem resultados expressivos. O Brasil não vencia uma Copa havia vinte anos, e era preciso ganhar, nem que para isso fosse preciso jogar feio e abandonar nossas qualidades. Aliás, para Dunga era mais do que isso. Para ele, nossas qualidades é que impediam nosso sucesso. E nisso ele apostou – e fracassou – em 90.

Em 94, ele ainda não havia se esquecido de 82 e 86. Pelo contrário. Apostou ainda mais nisso, apoiado em Parreira, e venceu a Copa com mais volantes que craques.

Foi pensando nisso que o colocaram como técnico em 2006. Nossa seleção havia fracassado por ter acreditado demais em nossa habilidade. Por nos acharmos tão bons, que nem precisássemos treinar. Por Ronaldo ser tão genial, que pudesse se apresentar dez quilos acima do peso. Por sermos tão superiores, que nem precisássemos marcar os jogadores adversários.

Então Dunga apostou antes na lealdade e no comprometimento do que na capacidade real de cada jogador. E parece que foi aprovado nisso. Tanto é que tem uma propaganda abominável da Gatorade: “Mais vale um jogador comum com força de vontade do que um craque na zona de conforto.”

Então eu lhes pergunto: será que somos tão idiotas a ponto de achar que um craque não pode sair da zona de conforto?!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Este blog voltou

Meus queridos leitores,

Este espaço não tinha atualizações desde o dia 26 de janeiro. Isto significa que o blog ficou inativo por seis meses. Para a internet, isso quer dizer 600 anos ou mais! Mas como não dou ponto sem nó, nem driblo sem chutar, trago-lhes uma boa notícia: o blog, enfim, voltou.

Estava eu ocupado com o projeto da El Cabriton, por isso não podia atualizar por aqui. Mas agora o projeto terminou, e o tempo não me é mais escasso. Pelo menos por enquanto! Então animem-se, que nos próximos séculos este blog será palco de grandes atrações futebolísticas!

Não transmitiremos jogos piratas, mas falaremos aqui de jogos das Copas do Mundo e dos Campeonatos Brasileiros que seguirem.

Um grande e efusivo abraço,

André

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

7 - Pontos corridos x Mata-mata – As opiniões dos leitores


No mês passado, começou aqui neste blog uma disputa ferrenha dos pontos corridos contra o mata-mata. Qual sistema de disputa é o melhor?

A discussão até aqui tem sido muito profícua, e não houve quem apelasse na argumentação. Ocorre, porém, que se alguém quiser chegar a uma conclusão a partir deste embate, terá muito trabalho.

Ao todo, foram quatro depoimentos: dois a favor dos pontos corridos, dois a favor do mata-mata. É mole? Rincón fez um a zero para os pontos corridos, sob a argumentação de que time que está ganhando não se mexe. Depois, Candinho, o técnico, não se contentou em empatar, e virou o jogo para os mata-matenses. Ele diz que não há emoção que se compare a uma final, e que os times desinteressados no começo e no final da competição cortam o principal argumento dos pontos corridos – a justiça.

Agora, pois, é a vez dos leitores. Thiago Ciaciare, o leitor que aqui primeiro comentou que me perdoe, mas tenho que começar com a pessoa que comentou por último. Sei que é injusto, mas o último comentário é de meu pai! E ele merece todas as homenagens neste espaço, porque se ele não existisse, eu não gostaria tanto de futebol e jamais pensaria em criar um blog sobre o tema. Fora que eu não saberia escrever, não teria olhos para assistir a uma partida, não torceria pelo Palmeiras... E pensando melhor, eu sequer existiria!

Vamos à opinião dele, o Francisco, expressa em um dos comentários deste blog.

“Sou Mata-matense de carteirinha.

O sabor de uma final, onde TODAS as torcidas ficam ligadas em um único jogo, é incomparável em relação à frieza dos pontos corridos.

Nos pontos corridos não conta o improvável de uma zebra aos 45 do 2º tempo, com um gol de canela do centroavante do time que tomou sufoco durante 90 minutos, mas não soube marcar.

Pela volta dos mata-matas!”

Pois Francisco se emociona deveras em uma final. Posso dizer que sou grande testemunha disso, pois não me lembro de acompanhar uma final de meu time sem que ele estivesse por perto. E ele se emociona, mesmo tendo outros problemas a resolver em sua vida cotidiana. Eis, até, outro ponto do mata-mata. Este é um sistema que envolve até quem não se preocupa tanto com futebol – não que meu pai não se preocupe! E é assim, porque um esporte que não emociona não tem razão de existir, que o mata-mata alarga o placar e faz o terceiro gol dos mata-matenses. Agora, temos Pontos Corridos 1 x 3 Mata-matas.

Porém, posso dizer que já vi Francisco roer as unhas em vários jogos dos pontos corridos. Olhe que nem última rodada era! E o imponderável, que ele representou pelo gol de canela do centroavante do time que tomou o sufoco, também pode acontecer nos pontos corridos. Imagine se o Grêmio empata contra o Flamengo no Maracanã? Ou se, no ano retrasado, o Goiás arrancasse um empate do São Paulo? Teve ainda o embate de 2004, quando o Atlético Paranaense, em vias de ser campeão, perdeu para o Vasco, medíocre à época, e entregou o título para o Santos.

Thiago, um comentador assíduo deste espaço, adota uma linha contrária a de Francisco. Ele é um pontocorridense roxo. E tem bons argumentos para isso:

“CLARO que eu apóio os pontos corridos.

Num país bagunçado, improvisado e - que coisa - orgulhoso de tudo isso, é melhor que se comece dar ao povo bons exemplos de MERITOCRACIA. Como tem muito mais gente que se presta a entender isso através do futebol do que de, sei lá, ADMINISTRAÇÃO EMPRESARIAL, tá aí.

Assim, traçando um panorama entre os piores problemas do País e o aprendizado da cidadania através do BALÍPODO, sugeriria até a criação de um novo critério de desempate no Brasileirão, o ISA, ou índice de sujeira atirada: a torcida que atirasse menos sujeira nos estádios daria ao seu time a vantagem do empate (e, à sua cidade, o alívio das enchentes) !!!”


Ele tocou em um ponto importante. O de que no Brasil não estamos acostumados a glorificar aquele que trabalha e é constante, como o que é idealizado na meritocracia. Ponto, ou melhor, gol legítimo e bem feito para os pontocorridenses. Pontos Corridos 2 x 3 Mata-mata. Mas aqui eu pergunto, sem querer provocar. Thiago e todos os pontocorridenses de meu Brasil: se no Brasil não gostamos da meritocracia, o futebol, nosso principal esporte, não deveria representar justamente isso? Porque futebol é uma das representações mais claras de uma cultura. Mas isto é só uma pergunta, portanto não vale o gol!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

6 – Paulo César, o coitado

Inspirado na coluna de José Roberto Malia. Menos no que diz respeito às ironias. Porque inoria é para os inteligentes, não é mesmo?

O maior mal da imprensa esportiva é a falta de assunto. Não importa que no Brasil tenhamos 14 times grandes, e o mesmo tanto de times médios. Chega o começo de Janeiro, quando não tem ninguém contratando ninguém, ou a sexta-feira em que ninguém joga contra ninguém, e, mesmo assim, é preciso ter o que falar.

Porque todos os jornais têm a parte esportiva. Os canais de televisão também têm os programas esportivos. Sem falar dos canais de TV e dos jornais que têm o esporte como assunto único. Preencher todos esses espaços torna-se um desafio comparável ao de Maomé!

Houve uma vez em que um futebolista foi reclamar a um comentarista, que havia sido injusto e imponderado em suas colocações. O comentarista respondeu o seguinte:

- Eu compreendo o que você está falando e concordo com tudo. Mas se eu não falasse de você, falaria do quê?

O futebolista em questão nunca mais reclamou da imprensa. Mas também nunca mais comprou um jornal.


A maior vítima dessa falta de assunto é o juiz. Quando ele acerta a marcação, não há o que falar, pois ele acertou. Quando ele erra, aí, sim, os jornalistas agradecem a Deus – ou ao diabo -, pois agora têm assunto.

Ontem, Paulo César de Oliveira errou ao validar o gol do Barueri contra o Palmeiras. Tadeu, que cobrou o pênalti na trave e depois recebeu o rebote para enfim marcar o gol, estava impedido. Mas era um lance rápido, e Paulo César simplesmente não viu.

Se o assunto acabasse onde tivesse que terminar, o juiz não seria tão execrado, mas os jornais esportivos amanheceriam vazios.

***

Por que os erros dos jogadores são desculpados por estarem no início da temporada, e os dos juízes, não?

***

Tem jornalista que não se cansa de pedir a arbitragem eletrônica no futebol. Se isso acontecesse, e os juízes não mais errassem, sobre o que eles falariam depois dos jogos?!

***

Não sei se você sabe, mas quando eu era criança, entrei em campo com o time do Palmeiras, no Palestra. Fiquei esperando os jogadores num túnel, por onde também passaria o árbitro. Comigo estavam mais de cem crianças esperando por Rivaldo, Djalminha, Luizão, Velloso, Cléber, Galeano e outros craques – quem disse que Galeano e Cléber não são craques? Mas antes, quem apareceu foi Paulo César de Oliveira, o juiz.

As crianças todas, mal viram aquele homem vestido de preto, começaram a xingá-lo com palavrões que, à época, eu até desconhecia! Alguns eram até racistas. E o pior: havia meninos negros execrando a cor de Paulo César. Isso antes do jogo começar, com possibilidade iguais de favorecimento ao Palmeiras ou ao Rio Branco de Americana, que era o adversário daquela noite.

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Paulo César de Oliveira é o juiz mais talentoso da geração dele. Costuma-se dizer que talento é quando Deus abençoa alguém com uma aptidão. Talento para arbitragem, porém, não é uma benção. É um castigo!

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Digamos a verdade: o Palmeiras foi beneficiado pelo erro de Paulo César. É só observar quantas pessoas estão comentando o péssimo futebol do time em Presidente Prudente.

***

O Barueri em Presidente Prudente é o Bebeto no Vasco, O Viola no Palmeiras, o Ronaldinho no Real Madri, o Edmundo no Corinthians – e no Flamengo -, o Evair no São Paulo... Por que jogador pode ser mercenário, e time não?

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Há seis meses no espantamos ao ver Belluzzo nervoso como um torcedor ao reclamar do Simon. Hoje, o espanto seria ao ver Belluzzo calmo como um professor.

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O novo mantra do Palmeiras: “Obina não tinha a menor vaidade. Obina é que era atacante de verdade!”

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

5 - Por que Manuel era chamado de Garrincha

Manuel dos Santos nasceu em Pau Grande, filho de Amaro Francisco dos Santos e Maria Carolina dos Santos. Mas foi a irmã Rosa quem notou a parecença do menino com um passarinho, a Garrincha, ou a cambaxirra, de nome científico Troglodytes musculus.

Engraçado é que quando ele saiu de Pau Grande contratado pelo Botafogo, a imprensa carioca custou a concordar com este apelido. Chamaram-lhe Gualhixo, Garricha (sem o N), até uma matéria definitiva em O Globo com a manchete: “Meu nome é Manuel e meu apelido é Garrincha”.

Pensando melhor, se Garrincha é feio, Gualhixo e Garricha são piores ainda! Ou, como sempre diz a minha mãe, não é o nome que faz a pessoa, é a pessoa que faz o nome.

Fonte: Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro

4 - O preço de Garrincha

Se o Palmeiras quisesse ficar com o atacante Obina no final de 2009, teria que pagar quatro milhões de reais ao Flamengo. O Corinthians pagou quatro milhões de dólares para ter De Federico. O Manchester pagou vinte e seis milhões de euros ao Leeds para ter Rio Ferdinand. E o Botafogo? Quanto será que pagou para ter Garrincha?

Em 1953, o Botafogo pagou ao Pau Grande FC vinte e sete dólares. Ou, na nossa moeda da época, quinhentos cruzeiros.

Tudo bem que houve uma grande inflação de lá para cá mas era um preço era absurdamente barato. Didi chegou a custar 30 mil cruzeiros. Mas é um exercício interessante, se compararmos com os preços dos craques de hoje.

Aplicando a conta de que o dólar em 1953 valia dez vezes mais do que hoje, com o que Real Madri pagou por Cristiano Ronaldo daria para comprar quinhentos e vinte e dois mil Garrinchas! O Buffon, que tanto seria ridicularizado pelo Mané em um lance frente a frente, vale duzentos e sessenta mil Garrinchas. Está certo que o Botafogo fixou o passe de Garrincha a 15 milhões de cruzeiros, o que representaria 60 mil dólares, mas, para alguém com a categoria do nosso Mané de pernas tortas, convenhamos, é um preço baixo, mesmo se levando em consideração as proporções da época.

Mas podemos falar também do salário de Garrincha. Em 1956, ele ganhava 1600 cruzeiros, o que representava 160 dólares. Hoje, esses 160 dólares equivaleriam a 1600. É o quanto Cristiano Ronaldo ganha em 41 minutos. Isso mesmo. O que Garrincha demorava um mês para receber, Cristiano Ronaldo ganha em 41 minutos. Ou o que Thierry Henry demora 82 minutos. Ou o que o penta campeão Marcos demora dez horas para receber.

Fonte: Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

3 - Qual seria o time de Napoleão Bonaparte?

Se Napoleão nascesse cerca de 150 anos depois, quem sabe ele não torceria por um bom time e sossegaria o facho? Ele sanaria todo desejo de invadir a África com uma vitória fora de casa. Ao invés de mandar os portugueses para correr, se contentaria com uma vitória da França de Henry contra Cristiano Ronaldo numa semi-final de Copa do Mundo. Não precisaria ser o imperador da França. Bastaria ser o presidente do clube do coração.

Mas Napoleão, coitado, nasceu em 1769, época em que o futebol era alguma coisa selvagem disputada apenas na Inglaterra.

Depois da Revolução Francesa, ocorrida em 1789, a França se encontrava em estado semelhante ao caos. Ninguém e nenhum país – até a França! – passa intacto por uma revolução. A burguesia não se conformava com os jacobinos, uma classe revolucionária e, convenhamos, que deveria feder a valer, pois, se os franceses comuns já costumam ser fedidos, imagine os franceses revolucionários? As outras monarquias européias morriam de medo que esses ideais revolucionários cruzassem a fronteira. Também pudera. Se copiam o bidê, o salto alto e até o corte Chanel da França, por que não plagiariam movimentos que promoviam maior igualdade social?!

Napoleão aproveitou-se desta balbúrdia em que a França se encontrava, e com o golpe de 18 de Brumário acalmou todo aquele país. Porém, ele ganhou tanta força, que acabou conseguindo o que os franceses tanto lutaram para extinguir: a volta da monarquia, mas desta vez ele seria o rei. Foi neste período que Napoleão liderou a França para conquistar o maior tamanho de sua história. Se hoje você olha para o mapa da Europa e encontra com dificuldade aquele país entre a Espanha, a França, a Itália, Suíça e Bélgica; em 1812 quase toda a Europa Ocidental e parte substancial da Oriental faziam parte do território Francês. Quase 50 milhões de pessoas. Você imagina quantos croissants eram feitos diariamente?

Foi este crescimento que levou a França a entrar em colisão com a Inglaterra. Napoleão ordenou que nenhum país europeu – eu disse nenhum! – poderia negociar com os ingleses. Ora, justo a Inglaterra?! Aquele país com indústria tão avançada! Os países começaram a sentir falta de máquinas, produtos têxteis e outros avanços industriais, que só a Inglaterra produzia. Para se ter uma ideia, imagine como você se sentiria se o Brasil não mais pudesse negociar com a China. Seria ruim, não seria? Todos os mini-games, cd´s e dvd´s piratas, eletrônicos baratos e outras coisas com que você se acostumou, de repente fora do mercado. E no lugar delas você só pudesse comprar artigos de luxo, que são talvez menos funcionais e muito mais caros. Então.

Portugal não conseguiu se livrar dos comércios com a Inglaterra. Eu também não conseguiria. Napoleão soube disso, e colocou seu exército para invadir Portugal. Para não ser encurralada no próprio território e obrigada a abdicar do trono, a família real portuguesa veio para o Brasil assim que soube dos planos de Napoleão. Isso, no final, acabou ajudando o Brasil a se tornar independente.

Depois disso, Napoleão tentaria invadir a Rússia depois de ela quebrar também o bloqueio continental. Os russos jogaram na retranca. Foram queimando, literalmente, todas as cidades em que a tropa de Napoleão passaria. Os franceses encontravam cinzas onde esperavam batalha. Além de não sanar a fome de sangue, a fome de comida passou a ser real, e não sobrou resultado a Napoleão que não uma derrota acachapante. Aquele exército que parecia invencível foi derrotado sem confronto direto.

Depois Napoleão ainda tentou voltar ao poder, mas foi derrotado, como você deve saber, em Waterloo.

Desculpe se falei tanto assim da França e menos de Napoleão, mas a história da França tem muito a ver com a própria de Napoleão. Se a França era pretensiosa daquele jeito era porque era coordenada por um homem pretensioso como Napoleão. O contrário também vale. Se Napoleão era pretensioso daquele jeito era porque nasceu em um país pretensioso como a França. Napoleão era tão cheio de si, que uma vez tentou se matar e tomou trinta e sete vezes mais arsênico do que o recomendável. Ele achava que a dose letal para um homem comum não traria nenhum dano a alguém como ele.

Ele inventou o salto alto. Tinha um metro e sessenta e sete, o que não chegava a ser uma altura desprezível – é maior que a de Romário. Mas é complicado mandar num homem maior. Ele também gostava de coroas. Em sua coroação, que teve a presença ilustre do Papa Pio XVII, ele tirou a coroa de Pio para coroar a si mesmo.

Enfim. Vamos escolher o time dele?

Sei que um português que se preze tem arrepios ao ouvir falar no nome da Napoleão. Mas posso apostar que ele, pelo contrário, sentiria até certo prazer ao tocar em qualquer assunto relativo a Portugal. Afinal, quem não se envaideceria por saber que foi a causa da fuga de um rei? Por isso não se espante com três opções de times de origem portuguesa. Meu pai, mesmo, torce para o Palmeiras, dos italianos, sendo um português de sangue.

O leitor poderá escolher entre Portuguesa, Vasco, Portuguesa Santista e Bahia.


Ele torceria pela Portuguesa?



Muita gente pensa que Napoleão jamais torceria pela Portuguesa porque a Lusa é um time menor do que os outros. Mas este seria o grande trunfo de Napoleão. Sendo a Portuguesa a queridinha, não seria difícil de convencer o Brasil inteiro a escolhê-la como o time principal. Napoleão usaria a simpatia prévia que todos nós temos, para potencializá-la e passar a uma paixão arrebatadora. Depois de alguns anos de Napoleão no comando da Portuguesa, ela ostentaria o título de “a mais querida do Brasil”.


Ele torceria pelo Vasco?



A arrogância de Napoleão talvez fosse o maior obstáculo para adotar um time que tenha o nome de outro personagem da história. Mas quem disse que os arrogantes não são humildes no futebol? O Vasco seria a exceção obsessiva de Napoleão. Ele diria sempre que é o maior, para fazer uma ressalva logo em seguida: - “Depois de Vasco, aquele grande conquistador”.


Ele torceria pelo Bahia?



Pouca gente repara, mas as cores do Bahia coincidem com as da França. Napoleão olharia um catálogo de distintivos dos clubes brasileiros e se encantaria por aquele campeão brasileiro de 88. O único problema é que chamaria todas as semanas o atacante Bobô para tomar um vinho francês legítimo. Ou não seria o Bobô que receberia Napoleão para comer acarajé?


Ele torceria pela Portuguesa Santista?



Napoleão talvez não se interessasse por um time já grande, com inúmeros craques em sua história. Para ele ser relevante, somente pegando um time em que todos não vêem nada além de um destino fadado à falência. Napoleão torceria pela briosa e a faria campeã continental. Todos saberiam quem seria o verdadeiro responsável pelo título, e os programas esportivos não hesitariam em ditar o time santista assim: -“É Napoleão mais dez!”.

Escolha o time de Napoleão. Na semana que vem, teremos o resultado.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

2 - Lugar de juiz e bandeirinha

Texto originalmente publicado na edição #13 da revista Invicto

Foi Léo Feldman o juiz que apontou para o centro do campo quando Renato Gaúcho deu a barrigada para o gol no ano de 1995. Em 2001, foi ele também quem autorizou a cobrança para Petkovic garantir o tri carioca do Flamengo aos 43 minutos do segundo tempo. Feldman foi um juiz conceituado em sua época. Dessa mesma boca acostumada a assoprar o apito para plateias aos milhares, saiu, em 2009, a seguinte história.

Havia um jogo importante a ser feito em uma capital do nordeste. Os bandeirinhas, coitados, jamais haviam visitado a cidade e pediram com muito tato, se possível, e caso não atrapalhasse, para visitá-la dois dias antes. Feldman consentiu, pois, embora não pareça, bandeirinhas são seres que gostam de aproveitar certos prazeres. Léo pegou o avião um dia depois e, recém-chegado ao aeroporto, quis logo saber onde os colegas estavam. O espanto dele foi grande ao ser informado que não estavam em um restaurante, ou no próprio hotel. Era, desculpe, em um bordel, que eles se encontravam.

A fúria de Feldman atemorizaria até o mais másculo homem. Ele tratou de encontrar os auxiliares o quanto antes e os repreendeu com a maior ferocidade de que era capaz, ensinando que aquilo não era lugar de bandeirinha antes de jogo importante. Os dois ficaram acuados, e, no dia seguinte, com a bandeira entre as pernas, foram para o jogo e atuaram perfeitamente.

Encerrada a partida, ainda cabisbaixos, ouviram de Léo a seguinte proposta: “Sabe aquelas mulheres que os acompanhavam na noite de ontem? Liguem para elas e perguntem se tem lugar para mais um, que eu quero me divertir também!” Assustados, perguntaram o motivo de tamanha reviravolta em seu humor.
Ele calmamente explicou o que deveria já ser de conhecimento deles, tão básica é a informação: “Não é que juiz e auxiliares não possam ir à zona. Eles podem...Mas depois do jogo!”

1 - O juiz que encurralou o repórter

Texto originalmente publicado na edição #13 da revista Invicto

No ano de 1993, o Grêmio recebeu o Santos no estádio Olímpico, em partida do Campeonato Brasileiro. Não era uma partida qualquer – se é que um clássico entre estas equipes possa ser uma partida qualquer. Tratava-se da estreia do lateral Branco no Olímpico. Tudo bem que àquela época ele ainda não tinha marcado aquele gol contra a Holanda nas quartas de final da Copa do Mundo, mas mesmo que não fosse um jogador irretocável, os atletas de longas madeixas sempre fizeram sucesso na terra de Fernandão, Falcão, Ronaldinho, Renato, Alcindo e Batista.

O árbitro escolhido para a partida foi Léo Feldman.

Mas juiz não tem vida tranquila. Se tivesse, não seria juiz e não se vestiria de preto. Aconteceu de ter um pênalti indiscutível contra o Grêmio, e Feldman, claro, marcou sem pestanejar. Darci converteu o pênalti e assim se encerrou a partida: 1 X 0 para o Santos. É claro que os torcedores gremistas ficaram furiosos.

E a reação deles não ficou somente nas reclamações. Assim que o juiz e os bandeirinhas entraram no vestiário, não conseguiram mais sair, tamanha a revolta local. Um repórter, contente pela notícia, informou a plenos pulmões o que estava acontecendo, não sem certo sadismo: “O juiz e os auxiliares não conseguem sair do vestiário porque a torcida gremista não deixa”.

Léo ouviu e teve uma grande ideia. Ele cercou o repórter e lhe avisou: “Você só sai daqui com a gente”. Mas deu a solução: “Trate de informar que eu e os bandeiras já saímos e estamos bem”. Ao repórter, acuado, não restou opção. Ele informou o que Feldman queria e o efeito foi instantâneo: a massa azul dispersou. Aí, sim, puderam todos ir embora tranquilamente.

11 - O juiz vaidoso

Texto originalmente publicado na edição #13 da revista Invicto

A história a seguir é contada por Vagner Tardelli. E o leitor que espera um causo com gel ou brilhantina no meio, muito se engana, porque tudo aconteceu com Antônio Buaiz.

Buaiz apitava um jogo no Espírito Santo e não esperava que a leve chuva do começo da partida pudesse engrossar e tomar as proporções de uma tempestade. Ele começou a se preocupar com a qualidade do gramado e com a ausência de delicadeza dos jogadores que se aproveitam do piso escorregadio para executar jogadas de maior violência. Mas aos 40 minutos do segundo tempo esses problemas tornaram-se apenas secundários.

O capitão de uma das equipes lhe avisou que o bandeirinha certamente tinha sido atingido, já que estava com a face abundantemente avermelhada. Buaiz conferiu e, sobressaltado, chamou apressadamente um médico de uma das equipes para prestar os primeiros socorros.

Para a surpresa de todos, porém, o auxiliar não se queixava de dores. Pelo contrário, podia-se dizer que estava plenamente saudável. Ele estava era admirado por tamanha preocupação do médico e dos jogadores, que eram incapazes de olhar-lhe no rosto sem fazer careta ou comentar alguma coisa com os companheiros. De fato, o médico constatou que nada havia. Ao tocar-lhe a face, percebeu que aquilo não se tratava de uma lesão – era apenas tinta.

O auxiliar havia tingido o cabelo pouco antes da partida e a chuva surpreendeu a artimanha. A tinta não só saiu do cabelo, como se espalhou pelo rosto do bandeirinha, dando o falso efeito de ferimento. Já com a face limpa, o bandeirinha continuou com a cara vermelha – desta vez, ruborizava-se apenas por vergonha, como todo homem que tem sua vaidade pega em flagrante.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

10 - Horóscopo dos futebolistas - Capricornianos



Agora, o time dos capricornianos.

Este é, talvez, o time mais homogêneo de todos os signos. O leitor perspicaz reparará que o pertencente a este signo tem uma clara aptidão ao gol e à posição de volante. Até os atacantes capricornianos poderiam ser volantes, em alguns casos.

O capricorniano é aquele que não faz nada à toa ou gratuitamente. Está sempre pensando no que suas ações podem lhe trazer no futuro. Então não é raro encontrarmos um craque que assina com um time para jogar em outro no futuro, ou que dá uma declaração polêmica para se aproveitar da confusão. Aliás, até no estilo de jogo, o capricorniano é assim. Quando todos pensam que ele errou ao cobrar a falta forte na barreira, ele queria, na verdade, assustar os zagueiros do escudo humano, para ter sua tarefa facilitada no próximo lance.

Por isso, o capricorniano também pode ser muito paciente. Ele é ciente de todas suas capacidades, e sabe que um dia seu esforço será premiado com um contrato melhor. Ele também sabe que um gol levado no início não é de nada. Quando ele entra bem no campo, sabe que é para vencer, nem que comece perdendo de um, dois, até três a zero!

Este temperamento leva muita gente a achar que o capricorniano é frio, e se desinteressa pela opinião alheia. Mas quer agradá-lo? Elogie. Ele despistará, mudará de assunto, mas no íntimo arderá de felicidade pelo brilho reconhecido.

Vamos ao time capricorniano.

Só temos um grande técnico deste signo, e não poderia ser outro, senão Alex Ferguson. Eu não disse que eles são pacientes? Quando começou no Manchester, Ferguson demorou anos até conquistar o primeiro título. E ele passava todo esse tempo de bom humor, pois sabia de sua capacidade. Aí está: o técnico mais duradouro do futebol mundial.

Para o gol, temos muitas opções. Rodolfo Rodríguez, Waldir Peres, Félix, Gilmar Rinaldi, Zetti, Bruno e Carini. Eliminemos, sem muitas explicações, Bruno e Carini. Carini porque não é tão bom, e Bruno porque, além de não ser de primeira linha, comemora as defesas. Waldir Peres perde a posição por ser careca, e Félix porque esta seleção não é tão boa quanto a de 70, que poderia se dar ao luxo de um fraco no gol. Zetti também não, porque não representa o capricorniano com afinco, já que, impaciente, trocou de clubes ao longo da carreira. Ficamos entre Rodolfo Rodríguez e Gilmar Rinaldi. E ganha Rodolfo, porque Gilmar é empresário, e isto causaria um severo conflito de interesses.

Na lateral direita, Correa tem a vaga. Ele faz biquinho no começo, mas depois percebe que não poderia com um meio campo de Pierre e Gattuso. Maldonado e Richarlyson são deslocados para a zaga, e até gostam da nova posição. Athirson é o lateral esquerdo, e todos ficam desconfiados, porque ele não protege a zaga tão bem, e não compensa esta deficiência com um belo apoio no ataque. Problemão.

Pierre e Gattuso são jogadores praticamente iguais. Não fosse a cabeçorra de Gattuso, os dois seriam idênticos no campo. Mas eles foram escolhidos para que zaga não ficasse tão desguarnecida. Esta seria uma dupla de volantes que não passaria do meio campo, e não teria a menor vergonha disso!

O resto é alegria e poesia. Gérson, Rivelino, Bernd Schuster e Reinaldo. Ferguson não sabe nem em que lado cada um desses jogadores ficará, já que prefere se preocupar, com razão, apenas com a defesa.

Haverá muita indignação por alguns dos jogadores não relacionados. Viola e Serginho Chulapa estão fora para não tumultuar a harmonia do grupo. E Alan Kardec não joga porque Ferguson não acredita no espiritismo.

Então temos a seguinte escalação:

Técnico - Alexander Chapman Ferguson 31/12/1941

1 - Rodolfo Rodríguez 20/01/1956
2 - Correa 29/12/1980
3 - Maldonado 3/1/1982
4 - Richarlyson 27/12/1982
6 - Athirson 16/01/1977
5 - Pierre 19/01/1982
8 - Gattuso 9/1/1978
10 - Gérson 11/01/1941
7 - Rivellino 1/1/1946
11 - Bernd Schuster 22/12/1959
9 - Reinaldo 11/01/1957

Banco de reservas:
Waldir Peres 2/01/1951
Félix 24/12/1937
Jairzinho 25/12/1944
Escurinho 18/01/1950
Fio Maravilha 19/01/1945
Tinga 13/01/1978
Washington 3/01/1960
Sávio 9/1/1974
Claudio Caniggia 9/1/1967
Taison 17/01/1988
Baltazar 14/01/1926
Zamorano 18/01/1967
Dentinho 19/01/1989

Jogadores não relacionados:
Gilmar Rinaldi 13/01/1959
Zetti 10/01/1965
Bruno 23/12/1984
Carini 26/12/1979
Romerito 14/01/1975
Serginho Chulapa 23/12/1953
Viola 1/1/1969
Alan Kardec 12/01/1989
Magno Alves 13/01/1976
Léo Lima 14/01/1982

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

9 - Os Presidentes do Penta - JK


Começamos o governo de JK com muitas incertezas. Parecíamos aquele menino talentoso, que sabe perfeitamente de sua capacidade, mas não consegue prosperar sabe-se lá por quê. Havíamos fracassado nas duas últimas copas com times bastante qualificados, mas que fraquejavam na hora de decidir. Tínhamos a vocação de uma grande potência, mas pombas!, isto ainda não era nada palpável!

Mas desta vez poderia ser tudo diferente. Para a Copa do Mundo, sediada na Suécia, preparamos um projeto tão minucioso quanto inédito. Se antes íamos à Copa apenas reunindo os jogadores e o treinador, e depois viajando ao país sede para nos hospedarmos em um hotel que a Fifa reservara, desta vez planejamos tudo tal qual uma mãe super protetora.

Começando pela escolha do técnico, houve uma grande mudança. Ao invés de nomes óbvios como Flávio Costa ou Zezé Moreira, decidiu-se por Vicente Feola. Ao contrário dos outros dois, que se negariam a ouvir sugestões e decidir em conjunto, Feola tinha a humildade que o cargo naquele momento precisava. A situação lembra bastante a atual, quando Teixeira se decidiu por Dunga.

Nas duas últimas Copas, tínhamos grandes jogadores, como Djalma Santos, Julinho, Baltazar e Didi. Mas nossos craques eram como ilhas independentes em campo, como Ronaldinhos, Kaká e Adriano em 2006. Escolheram um técnico que decidisse em conjunto para que os craques também soubesse atuar como equipe.

Nossos jogadores passaram todos pelo dentista. Tudo bem que eles ganhassem salários comparáveis aos de médicos e advogados da época, mas haviam ali bocas absolutamente podres. Aquela delegação tinha 32 dentes imprestáveis, todos retirados.

Também passaram pelo médico comum. Muitos jogavam com alguns companheiros dentro de si: vermes, lombrigas e afins. E também houve exame psicotécnico. Tudo bem que ele não serviu de grande coisa, pois o psicólogo em questão aconselhou que Pelé e Garrincha não fossem aproveitados. Aliás, o nosso escrete era o único com dentista e psicólogo com a delegação na Copa. Os cuidados dos dois não foram necessários durante a competição, mas se fossem, lá estariam eles.

Os hotéis não foram escolhidos ao acaso. Houve a devida preocupação com o conforto dos jogadores que passava pelo clima aos campos para treinamentos regulares. Sabendo do potencial sexual de nossos jogadores, foi pedido também ao hotel que trocasse todas as funcionárias por... funcionários!

Enfim. Tudo o que atrapalhava nas últimas copas foi mapeado para que, desta vez, não houvesse meio de nosso melhor futebol não sobressair.

Já Juscelino assumiu em 1956 o governo de um país que não decolava. Não tínhamos furacões, terremotos, maremotos e vulcões. Muito pelo contrário. Solos férteis ocupavam a imensa maioria de nosso país. Havia mão de obra barata de sobra, com muito afinco para trabalhar. Mas mesmo assim, não confirmávamos o que a nossa vocação previa.

Juscelino foi peremptório desde o início. Estabeleceu o Plano Nacional de Desenvolvimento, o Plano de Metas, com o objetivo de crescer cinqüenta anos em cinco. Tudo bem que isso fosse mais uma frase de efeito, já que em cinco anos só é possível crescer... cinco anos. O que ele queria era provocar o clima e todas as condições necessárias para que o país crescesse muito.

As metas eram divididas em cinco grandes setores. A energia, o transporte, a indústria, a educação e a alimentação. Havia, pois, uma meta que simplificava todas as outras: construir Brasília.

Ao longo do governo, Juscelino conseguiu cumprir as três primeiras metas. Daí se vê a grande importância que ele deu a tudo que fosse visível e tangível. O capital brasileiro abriu-se mais ao estrangeiro do que a defesa do São Paulo abriu-se ao ataque da Portuguesa naquele 7 a 1. Máquinas e equipamentos industriais entraram no país praticamente sem impostos. Também o capital externo, que se associava simbolicamente ao interno.

Desse modo, a nossa industrialização envergou-se. A partir dos anos 30 as indústrias surgiram no Brasil, mas era a indústria leve, com bens de consumo não duráveis. Agora, era a indústria pesada que começava a ser criada aqui, com bens de consumo duráveis. Substituíamos, pois, a importação pela industrialização.

O ápice disso foi a construção de Brasília. Dizem que com o dinheiro gasto para construir nossa capital, seria possível erguer três delas. Mas Juscelino é sábio. Se uma Brasília já é muito chata e monótona, imagine três delas? O serrado morreria de tédio.

A Copa começou para nós em 8 de junho de 1958. Poucos dias antes, corremos o risco de perder nosso maior craque. O Brasil realizou um amistoso contra o Corinthians no Pacaembu, e Pelé foi vítima de uma entrada criminosa no joelho. Ele seria cortado, mas como era o Pelé, era prudente esperar mais um pouco. Já na Suécia, o joelho não parecia muito bom, e Pelé chegou até a pedir para voltar. De novo: como era Pelé, era prudente esperar mais um pouco. A espera foi recompensada: em 8 de junho, Pelé estava na estréia do Brasil contra a Áustria.

O jogo foi tenso, conforme era esperado. Se perdêssemos, a chance de cairmos na primeira fase era gigantesca. Além dos prejuízos práticos de um derrota – a perda dos pontos -, o moral da nossa seleção seria absurdamente abalado. Sem contar que os outros adversários – União Soviética e Inglaterra – eram dois dos mais fortes do mundo.

Contra os ingleses, apenas empatamos, e o jogo final da primeira fase era crucial, contra a União Soviética. E aquele jogo não seria só mais um. Era a estréia de Garrincha, e pela primeira vez seríamos os favoritos da Copa.

Apesar de o time ter Pelé, Didi, Vavá e Mazzola, faltava algum encanto. Esse encanto tinha pernas tortas. O Brasil foi avassalador contra a União Soviética. Ganhou apenas por dois a zero porque eles tinha Yashin, um dos melhores goleiros de todos os tempos. Os dois gols foram de Vavá. E os dois passes foram de Garrincha.

Por aqui, já era notícia geral de que Garrincha espantara os gringos. Eles nunca tinham visto jogador parecido. Aliás, se Garrincha já era um espanto para os acostumados ao futebol carioca, imagine para os europeus, acostumados com o futebol... europeu? Garrincha fez esquecer Julinho – até então o maior ponta do mundo.

Para o próximo jogo, Juscelino chamou Amaro, o pai de Garrincha, para que juntos ouvissem a partida. Amaro se sentiu honrado, mas não deve ter gostado muito. Fora do estádio, acompanhar uma partida de futebol é tarefa das mais íntimas – comparável ao sexo! E o analfabeto que estava acostumado a reações das mais intempestivas, acompanhou, manso, a partida ao lado do presidente. Brasil 1 x 0 País de Gales.

Na semifinal, contra a França, foram as esposas dos outros jogadores que acompanharam Juscelino na escuta. Deu sorte de novo: Brasil 5 x 2 França. Aliás, a França saiu à frente. Mas Didi, calmo como sempre, foi ele mesmo buscar a bola no fundo do gol e caminhou lentamente até o meio de campo, passando a tranqüilidade necessária aos jogadores, aos torcedores e, por que não?, a ele mesmo.

Na final, também saímos perdendo. Mas a força daquela seleção foi superior a qualquer lembrança de maracanazzo. Nem foi preciso que Didi repetisse o gesto, pois todos os jogadores sabiam da previsibilidade daquele título que não poderia ter outro dono. Cinco a dois, sem chances para a Suécia, que jogava em casa.

De volta ao Brasil, nossa seleção desfilou primeiro por Recife - onde o avião fez escala -, depois pelo Rio de Janeiro, onde encontraram suas famílias e o presidente. Juscelino, aliás, disse, no impulso de quem era campeão pela primeira vez, que todos os jogadores ganhariam casa própria. Passado um ano, com a promessa ainda não cumprida, Juscelino fez uma proposta mais branda. Que eles tivessem, sim, a casa própria, mas que pagassem por ela em suaves prestações.

O desenvolvimentismo de Juscelino teve um grande preço. O Brasil tornou-se absurdamente dependente do capital estrangeiro. Se crescíamos 7% ao ano, as dívidas aumentavam muito mais. E a inflação assombrou os governos posteriores, mas isso ficaria para depois. Porque a empolgação era assombrosa. Além do inédito campeonato mundial no futebol, Éder Jofre também foi campeão mundial de boxe também em 1958. Em 1959, a seleção de basquete dos homens foi campeã mundial, e a tenista Maria Esther Bueno ganhou Wimbledon e US Open.

Quando Juscelino Kubitschek disse que o Brasil cresceria cinquenta anos em cinco, fez uma profecia ao contrário: seriam cinco em cinquenta. Quero dizer: cinco copas nos próximos cinqüenta anos.

A seleção:

1 Castilho - Fluminense
2 Bellini - Vasco da Gama
3 Gilmar - Corinthians
4 Djalma Santos - Portuguesa de Desportos
5 Dino - São Paulo
6 Didi - Botafogo
7 Zagallo - Flamengo
8 Moacir - Flamengo
9 Zózimo - Bangu
10 Pelé - Santos
11 Garrincha - Botafogo
12 Nilton Santos - Botafogo
13 Mauro Zagueiro - São Paulo
14 De Sordi - São Paulo
15 Orlando - Vasco da Gama
16 Oreco - Corinthians
17 Joel - Flamengo
18 Mazzola - Palmeiras
19 Zito - Santos
20 Vavá - Vasco da Gama
21 Dida - Flamengo
22 Pepe - Santos

Treinador: Feola

Fontes: Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha
Site Brasil Escola
Site Memorial JK
Livros de História da escola